27/04/2012

- Capitulo 2 – De repente meus olhos ficam brancos


As férias estavam acabando. Era véspera do dia de retornar as aulas. Estava triste, foram os piores dois meses que alguém pode ter, e ainda estudando inglês. Estou prestes a falar fluentemente o inglês. Achei que iria demorar para eu aprender outra língua, mas isso não aconteceu, graças a minha mãe que fez estudar cinco horas e meia de segunda a sexta, e ainda uma hora sábado e domingo. Esforcei-me! Até de mais. Na verdade foi um pouco de exagero por parte da minha mãe, mas assim acho que não vou ter tanta dificuldade na escola este ano, em compensação a dislexia vai continuar me atrapalhando um pouco mais esse ano.
Não encontrei mais aquele velho barbudo no mercado ao lado do edifício Pettry. Acho que já tinha se aposentado. Raciocinei uma coisa lógica sobre o cartaz acima da cabeça dele, “Sua hora esta chegando” podia ser que a hora de se aposentar do senhor já estava chegando. Pode ser uma coisa boba, mas foi a única explicação que consegui pensar esse tempo todo. Resolvi deixar pra lá... Mas de algum modo eu não conseguia. Era como se o velho estivesse impregnado na minha mente, e qualquer coisa que me acontecia, me lembrava dele o tempo todo.
Passei minhas férias estudando e entrando no mar que já tinha me acostumado e ate deixou de ser tão gelado como era no primeiro dia quando fazia 6 graus, Porém no mês de fevereiro a temperatura também já subiu para 16 graus, não era tão quente como estava acostumado no Brasil, mas já estava um pouco melhor do que quando cheguei aqui. Não senti mais também aquele puxão no mar como na primeira vez, aliás, ainda não sei explicar o que aconteceu naquele dia.
Passei a frequentar também uma praça quase ao lado do edifício, onde bastante adolescentes da minha idade fazia o mesmo, lá conheci um garoto chamado Logan, que diz estudar na mesma escola que a minha, na academia Devolopys. Ele era loiro, magro, e tinha olhos quase brancos, como os do velho do mercado. Incrivelmente o garoto também falava o português, mas agora, isso nem me fazia tanta diferença, já que “quase” sabia falar o inglês.
Já era quase oito horas e minha mãe, como sempre, me chamou para o café da manhã dando os três soquinhos afetuosos na porta fechada. Eu caminhei pelo imenso corredor, e cheguei até a sala de jantar, onde estava repleto de comida espalhada pela mesa, bolos de chocolate, de coco, leite, café, os biscoitos, panquecas, vários tipos de pães e um suco de laranja delicioso que mamãe fazia especialmente para mim.
Como todo dia, tomei o suco que tinha um gosto de sorvete de laranja com chantilly. Laranja com chantilly, podia parecer um pouco estranho, mas acreditem ou não, para mim era a combinação perfeita. Comi alguns bolos de chocolate e imediatamente subi ao meu quarto, e fiquei o resto do dia estudando inglês, praticando, conversando com meu tio Roger, que estava me ajudando.
Meu pai Henry, tinha ido a seu novo trabalho, no porto de Los Angeles, ele navegava os grandes navios, e às vezes ficava longe de casa. Eu ficava dias, semanas ou até meses sem vê-lo.
O resto do dia fiquei imaginando como seria a minha nova escola, meus novos amigos, professores e tudo mais. Ao mesmo tempo fiquei triste, pois o ano iria recomeçar novamente, como todos os outros nove anos nas escolas do Brasil e meu décimo ano de escola seria agora em Los Angeles, fiquei também feliz, pois poderia ter um emprego melhor no futuro estudando na cidade do pecado.
Aconteceu mais uma coisa estranha nessa noite quando fui dormir em meu quarto de luxo. Sonhei com pessoas que basicamente não estavam em suas formas humanas. Algumas pareciam uma espécie de cães ferozes, outras, tinham presas afiadas e amareladas, e a minoria faziam luzes se acenderem no centro de suas mãos. Eles estavam em confronto, lutando, guerreando uns com os outros. Não conseguia ver detalhadamente a imagem de cada um deles, mas tinha um menino que parecia ter um pouco de cada, lançava luzes da palma de sua mão, tinha presas amarelas afiadas e ensanguentadas, às vezes se transformava em cão. Ele se destacou no meio da multidão em guerra, e me chamou a atenção. Olhei para cada passo que ele fazia no sonho. O seu jeito de guerrear era sem duvida extraordinário, sua defesa e seu ataque eram rapidamente seguidos, e assim derrotava qualquer inimigo que aparecia em sua frente. Ele era fantástico. Algumas criaturas como aves enormes, tiravam a concentração de todos da guerra, e elas voavam pela noite de lua cheia. Contra corrente, as criaturas pousaram no chão, e cuspiram fogo sobre os cães ferozes e nas pessoas que lançavam luzes, que por sua vez fizeram um tipo de barreira para o fogo não passar. As criaturas viraram-se para o menino que tinha todas as características, ele parecia assustado, mas de repente, o sonho se dissolveu, como o fogo que as criaturas cuspiam. E ali eu estava, de olhos abertos, acordado. Olhei para o lado, e o relógio marcava 07h30min, faltavam trinta minutos para eu poder chegar à academia Devolopys.
Eu me levantei, mas fiquei pensando porque eu tinha sonhado com algo que não fazia nenhum sentido, para um garoto normal como eu.
Tentei ignorar o sonho, e fui até o banheiro do corredor, e pela primeira vez no dia, me vi no espelho. Na mesma hora dei um pulo pra trás de susto. Meus olhos estavam completamente brancos, mais do que os olhos do velho do mercado e também de Logan, o menino loiro da praça. Mas quando me dei conta, os meus olhos devagar foram voltando ao normal, como eles sempre foram verdes acinzentados.
Fiquei muito assustado, e ao mesmo tempo sem reação, muito confuso, me sentia estranho com todas essas loucuras que estavam acontecendo desde que me mudei para Los Angeles.
O que estava acontecendo comigo?

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